quinta-feira, 13 de agosto de 2009

G.I. JOE - A ORIGEM DE COBRA


Por Diogo Azoubel

Este é um daqueles filmes que você não esquece por um “bom tempo” (leia-se: durante a saída da sessão). De fato, os efeitos especiais chamam a atenção do público, mas não são suficientes para fazer de "G.I. Joe - A origem de Cobra" uma referência no tratamento dispensado ao roteiro. Não cabe aqui falar do trabalho dos atores, tendo em mente que a construção da narrativa não lhes permite um, digamos, aprofundamento dramático nas cenas. Entretanto, fica a referência ao desempenho de alguns deles em outras produções cinematográficas e televisivas de maior expressividade como crédito.

Para começar, não há orçamento que dê jeito na ausência de uma trama bem amarrada. Sou suspeito para falar. Afinal, não sou um grande apreciador do estilo “bater-e-correr” de alguns blockbusters estadunidenses. O filme é inspirado em bonecos articulados que fizeram sucesso com as crianças nas décadas de 1980 e 90. Mesmo assim, o longa passa longe de toda magia que existia ao redor da série de simpáticos heróis que, posteriormente, viraram tema de quadrinhos, animações e games.

Na produção, orçada em US$ 175 milhões (cerca de R$ 320) pela Paramount Pictures, um grupo militar especial de agentes anônimos luta para livrar as cidades de Paris, Washington, Pequim e Moscou da completa destruição. De posse de uma tecnologia agressiva e muito “no sense”, os vilões não abrem mão dos clichês e do didatismo típicos de uma produção inteiramente comercial. Sobre a direção de áudio, é interessante perceber que o dinheiro reservado a edição foi gasto de maneira correta: nem mais nem menos que o esperado.

Os erros de continuidade são comuns durante todo desenrolar da narrativa. São erros primários que vão desde óculos que aparece cena sim, cena não na mesma sequência no rosto da Baronesa às mudanças de figurino inexplicáveis e irresponsáveis que confundem o público. Tudo é muito óbvio. Não precisa ser gênio para descobrir os planos da “turma do mal” logo nos primeiros 15 minutos. Basta desviar um pouco a atenção da pipoca e do refrigerante que, neste caso, são ótimas companhias.

Os figurinos agradam, mas, com exceção das armaduras tecnológicas e ofuscantes (nada discretas para quem quer passar despercebido), parecem ter sido jogados ao acaso, escolhidos não para compor o quadro geral da trama, e sim para deixar os personagens mais “descolados”. Dennis Quaid, Channing Tatum, Sienna Miller, Marlon Wayans e Joseph Gordon-Levitt se esforçam, mas não sustentam o filme. Até o fetichismo do combate entre a vilã-psicopata-do-andar-estranho e a mocinha-loira-sensual-nerd perde a graça pelos inúmeros cortes.

Os conflitos existências de personagens, as crises de consciência e a dissimulação capitalista são chatos. Não há novidades. As quebras temporais desnecessárias e as alusões ao final feliz dos contos de fadas é muito “água com açúcar”. No mais, se você estiver com algum compromisso antes ou depois da hora marcada para ver o filme, não se acanhe: saia antes de perceber os créditos finais na tela do cinema ou chegue atrasado sem remorsos. Você não perde nada que não possa ser resumido em duas frases.

Agora se você é daqueles que procuram aventuras e efeitos especiais de ponta, esteja certo: "G.I. Joe - A origem de Cobra" é mais do que bom... é ótimo. Vale ser visto pelo histórico do diretor Stephen Sommers (de "A múmia" e "Van Helsing"), pelas alegorias ao comportamento volúvel dos financiadores da guerra no Mundo e, sobretudo, pelas locações européias. Por outro lado, o longa deve ser evitado pela alusão ao uso da força e de armas para manutenção da ordem, pela referência à pseudo-soberania dos Estados Unidos diante do Mundo e pelas cenas em que milhares de inocentes morrem enquanto a “turma do bem” tenta salvar cidades ícone.

Campanha

Apesar de ter evitado o “olhar” dos críticos antes do lançamento oficial, os produtores do filme conseguiram arrecadar boas quantias em bilheteria. Os números não param de crescer e isso prova que a maioria das pessoas não dá a mínima para o que os outros falam sobre os filmes que devem (e por que devem, em alguns casos) ou não ser vistos. Este movimento “pago pra ver” mantém a “arte” (não me cabe discutir o mérito da questão aqui) democrática, onde os resultados de processos criativos variados são colocados à disposição do público, que decide por si só se deve consumi-los ou não.

(Obs.): Alguém me explica: CADÊ O SANGUE DESTE FILME? Liguem para o Tarantino, para o Eli Roth, para qualquer um que consiga usar melhor a “groselha”.

Ficha Técnica




Diretor: Stephen Sommers

Elenco: Channing Tatum, Arnold Vosloo, Sienna Miller, Ray Park, Rachel Nichols, Adewale Akinnuoye Agbaje, Said Taghmaoui, Marlon Wayans, Joseph Gordon-Levitt, Dennis Quaid, Christopher Eccleston, Karolina Kurkova.

Produção: David Womark, Brian Goldner

Roteiro: Stuart Beattie, David Elliot, Paul Lovett, baseado nos quadrinhos de Michael Gordon

Fotografia: Mitchell Amundsen

Trilha Sonora: Alan Silvestri

Distribuidora: Paramount Pictures Brasil

Classificação: 14 anos

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O LEITOR

Por Diogo Azoubel

Os terrores do holocausto nos levam, inevitavelmente, à Alemanha. As marcas históricas ali deixadas não podem ser apagadas, mesmo que algumas pessoas se esforcem para fazer crer que tudo não passou de um equívoco, uma farsa. Em O Leitor aspectos do pós-guerra alicerçam a construção da narrativa que evoca sentimentos como culpa, arrependimento e resignação.

Em meados da década de 50, a cobradora de bonde Hanna Schmitz (Kate Winslet) se envolve com o estudante Michael Berg (David Kross), de apenas 15 anos. Logo nas primeiras seqüências do filme, o adolescente aparece debilitado pelos sintomas da escarlatina, enquanto Hanna o ajuda sem maiores desejos. A estória é típica: jovem que se apaixona por mulher mais velha e não é correspondido da mesma forma.

Entretanto, o longa vai além do que se espera. Em um enredo cheio de quebras temporais, Michael Berg oscila entre a insegurança da juventude e a frieza da vida profissional adulta. Advogado, se distancia das pessoas criando uma espécie de redoma para o próprio corpo. Fato é, perambulando entre as memórias dele, negligencia até mesmo a filha, que serve de elo com o mundo real.

Já Hanna Schmitz não parece se apegar muito às pessoas com as quais convive. Fria, age como uma prostituta: troca sexo por recompensas. Neste caso, não se trata de dinheiro, mas de horas da leitura compartilhada de Berg antes ou depois de contidas cenas de sexo. Clássicos como "A Odisséia" e "As Aventuras de Huckleberry Finn" são negociados como que em um balcão de comércio popular.

Adiante, os protagonistas do tórrido romance se encontram para reviver mentalmente o passado comum. Ela frente a um tribunal e ele escondido entre os estudantes de Direito que, ali, tentam captar os interstícios de uma ação contra rés alemãs acusadas pela morte de 300 prisioneiras judias durante a Segunda Guerra Mundial. As cenas julgamento abusam da hipocrisia nacionalista, como se as ações de Adolf Hitler acontecessem à revelia do estado e da população germânica.

A relação que, daquele ponto em diante é retomada de maneira diferente do antigo romance, propõe questionamentos sobre a real culpa da sociedade em relação aos desígnios de um líder intolerante. Isso fica evidente quando Berg assume um protecionismo paternal em relação à ‘culpa’ de Hanna e, sem coragem para tirar a venda dos próprios olhos, a deixa sozinha em meio ao emaranhado de versões para o mesmo fato como se ela, e somente ela, pudesse servir de oferta para aplacar a fúria dos mais ‘humanizados’.

Com cinco indicações ao Oscar (melhor filme, diretor, atriz, roteiro adaptado e fotografia), o filme do diretor inglês Stephen Daldry não consegue ser linear no que se refere à captação da atenção dos espectadores. Dividido em duas partes – juventude e maturidade de Berg - que se desenvolvem simultaneamente, o longa ‘vai e volta’ inúmeras vezes até eu os fatos se encaixem e possibilitem o inevitável suspiro de ‘eu já sabia’ por parte da grande maioria do público diante do final veiculado.

Sem efeitos visuais de ponta, o longa prima pela exploração de uma nudez não vulgar, pelos figurinos que servem de indicações temporais e pela retratação de um amor que vai sendo desenvolvido silenciosamente entre personagens de universos tão distintos. O menino que vira homem, o jovem casto diante da mulher decidida e o arrependimento latente são alguns exemplos da subjetividade sutil.

Vale ser visto principalmente para constatar que a máxima ‘ a vida é feita de escolhas’ se encaixa perfeitamente no cotidiano de quem quer que seja. Além disso, o reencontro com o passado pode revelar aos mais atentos que, independente do que se tenha feito no começo da trajetória de vida, um novo final é reescrito sistematicamente a cada novo dia. Fica a escolha. Recomece e bom filme!

(Obs:) Perceba a semelhança estética entre o ator que dá vida ao jovem Michael Berg e o já falecido Heath Ledger, mais conhecido por interpretar um caubói bissexual em O Segredo de Brokbeack Mountain. Note também que, mesmo sendo a favorita na categoria ‘melhor atriz’ do Oscar, Kate Winslet não compartilha seu melhor com o público (vinde o filme Foi Apenas um Sonho).





Ficha Técnica:
Título:
O Leitor
Título Original: The Reader
Tempo de Duração: 124 minutos
Gênero: DramaDistribuidora: Imagem Filmes
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Kate Winslet;
Ralph Fiennes;
Bruno Ganz;
Alexandra Maria Lara;
David Kross.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

VERÔNICA

Por Diogo Azoubel


Quando se consegue buscar a felicidade e a segurança do outro em detrimento ao instinto de preservação pessoal, é sinal de que se conquistou altruísmo exemplar. No filme Verônica, essa abnegação se torna clara quando uma professora da educação básica decide, mesmo que inconscientemente, colocar o bem estar de um dos alunos dela à frente dos problemas cotidianos.

Em um enredo diferente daqueles que se costuma ver em Hollywood, o longa brasileiro consegue chamar atenção mesmo com algumas falhas. A construção dos traficantes, por exemplo, é carregada de clichês e gestos viciados em outras produções nacionais. Por outro lado, os constantes erros de continuidade cedem espaço ao carisma da atriz Andréa Beltrão, que protagoniza a estória.

Trata-se do antagonismo de uma profissional da educação pública do Rio de Janeiro que, diante da tensão e do risco, rejeita a posição de espectadora da própria vida e se lança no olho do furacão: Verônica se dedicou à educação de crianças e jovens durante as últimas duas décadas. Cansada e recém saída de um casamento frustrado, busca silenciosamente forças para auxiliar a mãe doente e o pai desempregado.

Endurecida pela rotina, faz do trabalho o estímulo para superar o baixo salário e a vida dentro de um quarto-e-sala. Ainda assim, Verônica, como muitas professoras brasileiras da atualidade, consegue ver na educação o instrumental necessário contra tempos de crise e violência desmedida. Por isso, se dedica ao exercício profissional com ardor e uma pitada de stress. Afinal, ninguém é de ferro.

Leandro é filho único. Afetivo, é obrigado a encarar a morte dos pais pelos traficantes da favela onde mora. Inconstante, oscila entre a maturidade precoce e a saudade da mãe. Sem saber, o menino carrega a chave para desvendar casos de corrupção que envolvem policiais, bandidos e membros do alto escalão de órgãos que, teoricamente, deveriam proteger à população.

Durante os primeiros trinta minutos do longa, o espectador é introduzido na estória dos dois personagens. Situações imprevisíveis somadas ao companheirismo tipicamente brasileiro são as molas para construção da narrativa. Em comum, Leandro e Verônica carregam o desejo de proteger um ao outro e o incansável fôlego para fugir de bandidos que parecem estar em todos os lugares.

Vale ser visto pela forma como consegue compartilhar com o público a tensão dos personagens. Pela trilha estimulante e pelas soluções que oferece para situações de perigo – a imagem azulada e granulada é um exemplo. No outro extremo, as transições secas e pouco inovadoras conseguem deixar a edição da obra repetitiva apesar das locações apropriadas.

No mais, questionamentos sobre que lei seguir, ética e moralidade são constantes. O diálogo final entre a protagonista e a própria consciência dela desperta um misto de revolta e letargia suficientes para fazer com que o espectador se projete do conforto da poltrona das salas de cinema para questionar a si mesmo: ‘Em que mundo estamos vivendo afinal?’. Tente responder e bom filme!

(Obs:) Repare quando Verônica e Leandro se despedem em um quarto de hotel. A seqüência resume bem as falhas técnicas presentes durante todo o filme. Elas podem ser constatadas mesmo pelos mais desatentos.



Ficha Técnica:
Título:
Verônica
Tempo de Duração: 87 minutos
Gênero: AçãoClassificação etária: 12 anos Distribuidora: Europa Filmes
Direção: Maurício Farias
Elenco: Andréa Beltrão;
Marco Ricca;
Matheus de Sá;
Giulio Lopes.
Site Oficial: http://www.veronicaofilme.com.br

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

Por Diogo Azoubel

A velhice é, ainda hoje, um tabu para muitas pessoas. Mesmo com o avanço das tecnologias que prometem, seja por uso de cosméticos ou ingestão de substâncias químicas e/ou naturais, limitar o ciclo natural da vida, falar sobre o processo de envelhecimento do corpo humano pode soar como ofensa para pessoas que buscam a pseudo-juventude eterna. Em O Curioso Caso de Benjamin Button peculiaridades deste tema são mostradas ao público de maneira reflexiva em uma narrativa que lembra o longa Forrest Gump (1994), em partes pelo trabalho do roteirista, Eric Roth.

O filme propõe, de maneira alegórica, a racionalização das práticas e costumes cotidianos, sobretudo no que se refere ao preconceito latente em relação aos mais idosos. Baseado no conto homônimo de F. Scott Fitzgerald, Benjamin Button recupera a estadunidense New Orleans de 1918 com muito brilho e sonoridade. Tudo começa com o fim da primeira grande guerra: pessoas nas ruas, bandas e muitos fogos emolduram o nascimento de um bebê que mudaria a vida e o pensamento daqueles ao seu redor.

Com um quadro clínico sem precedentes conhecidos pela medicina da época, o bebê Bejamin é deixado por seu pai às portas de um lar para idosos depois da morte da mãe dele. Ali, paradoxalmente, recebe o tratamento que seria dispensado a qualquer outra criança de sua idade. Não fosse pelas doenças e restrições típicas de alguém com mais de 80 anos, Benjamin seria ‘normal’ e é, justo neste ponto, que o longa captura a atenção dos espectadores.

Seguindo a estrada contrária da maioria das pessoas, ele rejuvenesce com o passar dos anos. Vive inversamente a vida da maioria e, com o corpo bem mais maduro que a própria mente, experimenta as matizes de uma juventude reumática e corcunda ao lado de amigos fiéis e bem mais velhos. O longa, que trás no elenco atores da primeira linhagem hollywoodiana, não perde o fôlego durante as quase três horas de exibição. Faz, entretanto, o público segurar a respiração e mergulhar fundo na fantasia das belas imagens e da trilha sonora perspicaz.

Sobre as imagens, o destaque, sem dúvidas, é para as que revelam o tom bem humorado da trama. Raios que atingem a um homem em momentos distintos da vida dele, a meretriz assustada diante do incansável homem de idade avançada e mesmo Brad Pitt fazendo poses diante do espelho são apenas alguns exemplos. Este último, aliás, revela um trabalho apurado de construção do personagem. É inevitável sair da sala de cinema pensando no quanto o ator surpreende pela atuação inusitada.

Em ritmo similar, Cate Blanchett e Tilda Swinton apresentam atuações firmes. Dando vida, respectivamente, à primeira e à segunda paixões do protagonista, as atrizes mostram o porquê habitam no imaginário de cinéfilos espalhados por todo o mundo. Cate, mais conhecida pelos filmes Elizabeth (1998) e Elizabeth – The Golden Age (2007), é capaz de sensibilizar ao ‘libertar’ de seu corpo a personagem Daisy Fuller, que abre mão do amor verdadeiro em benefício de um futuro melhor para a própria filha. Já Swinton, que interpreta Elizabeth Abbott, não deixa qualquer vestígio da Rainha Branca, de As Crônicas de Nárnia (2005 e 2008) – em um trabalho limpo e sem vícios.

Vale ser visto pela maquiagem apurada, pelo desempenho dos atores e pela magia de um conto fantástico que muito nos fala sobre como lhe dar com as escolhas da vida. É necessário descobrir onde reside o preconceito dentro de cada um de nós para, então, lutar contra ele seja lá sobre qual disfarce se esconda.

Ser velho não é nenhuma doença, muito embora algumas delas possam surgir com o passar dos anos. Basta notar que, mesmo diante de tantos cabos e softwares, o ser humano ainda deve ser encarado como o mais importante. E, como o relógio que anda para trás, aceitar que o tempo é o mesmo para todos e que a diferença está em como o aproveitamos. “Há pessoas que nasceram para ser mães. Outras que nasceram para ser atingidas por raios. Há pessoas que nasceram para dançar e outras, simplesmente, para contar histórias”.

O filme fala sobre saber ouvir boas estórias e sobre como tratar as diferenças. De maneira didática, dá uma lição aos que vivem pensando somente no imediatismo das coisas e também àqueles que demasiadamente se despreocupam com o amanhã. No mais, se os argumentos apresentados acima não forem convincentes, vale ser visto por como conduz a história de um romance improvável entre personagens de idades tão distintas. Além, é claro, para conferir detalhes responsáveis por 13 indicações ao Oscar. Bom filme!

Ficha Técnica:
Título no Brasil: O Curioso Caso de Benjamin Button
Título Original: The Curious Case of Benjamin Button.
Tempo de Duração: 166 minutos
Direção: David Fincher
Orçamento: US$150.000.000 (estimado)
Roteirista(s): Eric Roth, Robin Swicord, F. Scott Fitzgerald
Elenco: Brad Pitt;
Cate Blanchett;
Tilda Swinton;
Taraji P. Henson;
Jason Flemyng;
Elias Koteas
e Julia Ormond
Categorias em que concorre ao Oscar: Melhor filme; Melhor diretor - David Fincher; Melhor ator - Brad Pitt; Melhor atriz coadjuvante - Taraji P. Henson; Direção de Arte - Donald Graham Burt e Victor J. Zolfo; Fotografia - Claudio Miranda; Figurino - Jacqueline West; Edição (filme) - Kirk Baxter e Angus Wall; Maquiagem - Greg Cannom; Música (trilha sonora original) - Alexandre Desplat; Mixagem de Som - David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce e Mark Weingarten; Efeitos Visuais - Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton e Craig Barron; Melhor Roteiro Adaptado - Eric Roth.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

AOS DISTANTES AMORES - Série "Avulsos". Texto I

Por Diogo Azoubel


Um dia me perguntaram se eu acreditava em amores distantes. Por correspondência. De pronto respondi que não. “Como se pode amar alguém que não permaneça efetivamente ao nosso lado? Alguém de quem não se pode sentir o cheiro?”, disse. Foi então que a vida, do alto de sua sabedoria, me ofereceu, mais uma vez, a Mudança de Hábito.

Como que por combinação, a noite nublada e fria do início de janeiro traria junto com a chuva meu primeiro e, até então, único amor de verão. Em um espaço impróprio aos olhares mais líricos o inesperado aconteceu. Entre meias palavras e beijos apressados decidimos que somente Abraço(s) Partido(s) não seriam o suficiente.

E rimos, e corremos dos pingos gelados da madrugada, e desviamos os olhos por medo e receio infantis. Contamos, ouvimos, sentimos. Fomos ali, enfim, nós mesmos. Apaixonados pela proximidade de corpos ainda tão distantes. Como nos filmes Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol, em que os protagonistas conhecem a separação iminente, mas não desistem de si mesmos.

Já despido de qualquer preconceito ou amarra, decidi lutar pelA Paixão arrebatadora típica do cinema romântico. E, como na poesia de Vinícius, preferi acreditar que seria eterno enquanto durasse nosso amor, nossa Atração (Fatal? Não!). Assim sendo, não havia espaço para o passado, tampouco para a insegurança dos relacionamentos que começam sem alicerces o bastante fortes. Tudo deletado!

Coragem estampada na face, o Sol brilhando sobre nós nos dias em que se esperava pela chuva. Roupas no varal e café na mesa. O suficiente para alimentar os desejos de corações (curiosos e) abatidos pela surpresa de interação e intimidade instantâneas, eficazes. Porém, era preciso mais que simples promessas de um futuro comum. Era preciso pensar No Dia depois de Amanhã, na aprovação dos amigos, no cinema de domingo, no jantar e na porta trancada.

“Como lutar, então, contra tamanho despreparo e inexperiência”? De tanto pensar, pensei que seria melhor não lutar, não nadar contra a corrente de coisas boas que me levava rumo ao desconhecido. Assim sendo, aproveitei a vista. Vi paisagens maravilhosas, senti a brisa no rosto e o cheiro do rio. Percebi o espinho do ciúme e até achei aceitável. Briguei pelo que queria, mas não esqueci de mostrar a mim e aos meus defeitos. Bem recebidas Revelações.

E sobre o sorvete, bem... se já não disse: “estava delicioso, mesmo além da cereja”. Sendo a racionalidade gerindo minha vida, não poderia esquecer dos lençóis estampados em branco e preto tal qual na canção do Chico: “Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada...”. Ainda assim, depois de tudo (dAs horas e pensamentos de estrada, do biscoito lacrado como lembrança e das camisas no cabide), preferi continuar acreditando que cada poesia é sempre uma nova e que, nesse caso que vos conto, a solidão possa não ser uma constante.

De agora em diante não pretendo mais duvidar das pessoas. Espero enxergar além do óbvio e ter forças para dividir uma história que parece apenas ter começado. No mais, que as lições básicas de poesia e fisiologia façam cada dia mais feliz e diferente do anterior. Pois, como já disse, “não costumo desistir das coisas. Com você não será diferente”. Boa noite, boa sorte...

sábado, 10 de janeiro de 2009

NA NATUREZA SELVAGEM


Por Poliana Ribeiro

Existem filmes que são verdadeiras experiências de vida, mesmo que totalmente distantes da realidade a que se está acostumado. Mas, para que isso aconteça, é preciso uma comunhão de fatores: uma direção competente, uma boa história pra contar, uma fotografia tocante e uma trilha sonora bem escolhida. É exatamente o que se tem em Na natureza selvagem.

Dirigido por Sean Penn – que tem conseguido mostrar o seu valor no cinema -, o filme é não apenas um deleite aos olhos e aos ouvidos, graças à direção musical de Eddie Vedder, como também é uma excelente história que emociona até as criaturas mais resistentes a um bom drama. Ao contrário do que se possa pensar, a emoção provocada pelo filme não é resultado de um roteiro forçado, mas de uma trajetória real muito bem contada.

Depois da formatura, o jovem Christopher McCandless, de 22 anos, que nunca teve uma boa relação com os pais, ricos e sempre preocupados com status, resolve lançar-se ao mundo com a sua mochila nas costas, em um carro velho que, logo nos primeiros quilômetros de estrada, dá problemas e é abandonado pelo desapegado rapaz. Mas, diferente da maioria dos mochileiros, que sonham percorrer o mundo, o objetivo do jovem é embrenhar-se no Alasca e tentar sobreviver apenas do que a natureza lhe oferece. A idéia é ficar o mais distante possível da civilização – leia-se os pais - e do conforto e da comodidade que ela proporciona.

Assim, de carona em carona, o agora Alex Supertramp, como ele mesmo passa a se denominar, influenciado por escritores como Jack London, Leon Tolstoi e Henry David Thoreau, experimenta momentos de pura liberdade, que rendem belas cenas, como quando está no alto de uma montanha ou descendo uma corredeira. Disposto a sobreviver por si próprio, Alex tem a sorte de encontrar um ônibus abandonado, que já serviu de morada para outra pessoa e agora lhe abrigará das intempéries. É neste reduzido e improvisado espaço que ele faz suas precárias refeições, anota suas impressões sobre sua jornada solitária e coloca em dia sua leitura.

Mas apesar de esta ser uma experiência solitária para Alex, várias pessoas aparecem em seu caminho, seja um casal de hippies de meia-idade que lhe oferece carona, uma jovem cantora que ele conhece em um acampamento para onde é levado pelo mesmo casal, um fazendeiro que tem complicações com a polícia, um rapaz e uma moça que querem curtir a vida em Las Vegas e um solitário velhinho que o adota como neto.

Mais que nas tentativas de sobreviver tentando caçar animais, é por meio do contato com pessoas aparentemente comuns que Alex/Christopher consegue seus maiores aprendizados, quando verdadeiramente se conhece e torna-se um adulto. Na natureza selvagem é um filme sensível sem ser piegas, que induz a reflexões sem ser moralista ou politicamente correto. Em suma: a história de alguém que viveu intensamente e teve tempo de entender a verdadeira essência de ser humano.


Ficha técnica

Nome: Na Natureza Selvagem
Origem: EUA
Ano produção: 2007
Gênero: Aventura - Drama
Duração: 140 min
Classificação: 12 anos
Direção: Sean Penn
Elenco: Emile Hirsch, Catherine Keener,
William Hurt, Marcia Gay Harden, Hal Holbrook

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

VICKY CRISTINA BARCELONA

Por Diogo Azoubel

Junte locações elegantes, trilha sonora curiosa e ótimas atuações. Adicione uma pitada de humor sarcástico e fartas porções de romances dissimulados. Leve ao forno até dourar e, depois de descansada, a massa deve ser servida em uma mesa montada para duas pessoas sob a luz de velas numa noite de verão. Loucura? Devaneios juvenis? Não, este é o novo filme de Woody Allen. Vicky Cristina Barcelona quase peca pela ousadia, mas, depois de tantas idas e vindas de seus personagens estranhamente apaixonados, consegue ser interessante.

Filmado em Barcelona, Espanha, o longa negligencia o tradicional ufanismo estadunidense para propiciar novos horizontes ao diretor. Match Point e Sonhos de Casandra, ambos rodados em Londres, são outros exemplos da iniciativa que deu certo. No enredo, duas amigas viajam juntas para tentar, mesmo que inconscientemente, descobrir suas próprias essências. Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são jovens e possuem visões distintas do que seria o sucesso, a plenitude, sobretudo no amor.

A primeira, sistêmica e dedicada, tenta conciliar os estudos superiores sobre o universo catalão com o protótipo de um noivado que parece apontar para um casamento perfeito. A segunda, desprendida e aventureira, não mede esforços para aproveitar bem a vida e, desta maneira, tentar esquecer a frustração por não ter traçado um rumo para a própria vida. Em comum, além da amizade e respeito mútuos, as personagens despertam no artista plástico Juan Antonio (Javier Bardem) o desejo sexual impulsivo. Complicado demais? Tudo se resume a um convite direto feito sem rodeios durante um jantar.

Boa comida, bebidas e muito sexo: estes são os argumentos de Juan para convencer Vicky e Cristina a deixarem Barcelona e seguirem para Oviedo. A figura do narrador, largamente usada durante o filme, ajuda a entender o porquê Vicky aceitaria um convite tão abrupto. Fato é: em Oviedo há uma inversão comportamental entre as duas amigas, o que resulta no deleite do público com as situações que dali surgem.

Enquanto Vicky tenta concluir sua pesquisa acadêmica, Cristina começa a viver o romance mais intenso de sua trajetória, o que, teoricamente, seria capaz de norteá-la de alguma forma. Já as mentiras brancas, culpa e traições são os alicerces para que a ex-esposa de Juan, Maria Elena (Penélope Cruz) reapareça após uma de suas diversas crises emocionais e, assim, garanta boas risadas com seu temperamento explosivo. Sobre o beijo de Scarlett e Penélope: nada de fenomenal não fossem as atrizes que o protagonizam.

Tudo no longa parece ter sido feito para saltar aos olhos e pegar de surpresa quem o consome. A Barcelona mostrada é charmosa, imponente, tímida e fugaz. Doses grandiosas de Guadí e Miro enquadram a mistura entre o racional e o inaceitável, enquanto a música tema, Barcelona, do grupo Giulia y los Tellarini, silenciosamente gruda nos ouvidos e no carpete. E, em meio ao embaraçoso ciclo de relacionamentos, lições para a vida a dois podem e devem ser copiadas.

Vale ser visto pela imprevisibilidade com que as cenas são conduzidas, pelo apelo poético e mesmo pelo clima nostálgico das paixões ainda não vivenciadas. Vicky Cristina Barcelona é um convite aos desejos reprimidos e meio sujos que todos temos, além de questionar o mercado do corpo e das relações afetivas atuais. Sem dúvidas ótima programação, mesmo para os mais conservadores e, sobre o final de toda a trama: sentir é bem melhor que ler. Até!


Ficha Técnica:

Título no Brasil: Vicky Cristina Barcelona

Título Original: Vicky Cristina Barcelona.

Tempo de Duração: 69 minutos

Direção: Woody Allen

Elenco: Scarlett Johansson;

Penélope Cruz;

Javier Bardem;

Rebecca Hall;

Chris Messina;

Patricia Clarkson;

Carrie Preston.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

CASA VAZIA (Bin-jip)

Por Diogo Azoubel

“É difícil dizer se o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho”.

Confesso que quando ouvi pela primeira vez o nome do diretor sul-coreano Kim-Ki Duk fiquei curioso para saber do que, ou de quem se tratava. Na verdade, essa é uma daquelas situações que nos fazem desejar saber mais sobre a obra de um artista. O filme Casa Vazia rompe com os padrões hollywoodianos no fazer cinema. O uso do silêncio como forma de expressão estimula o pensamento de quem vê o filme. Faz imaginar o porquê alguém viveria a vida de outras pessoas para buscar a si mesmo.

Tae-Suk é um jovem universitário que invade casas. Em silêncio ele aprecia cada detalhe da nova morada na qual, curiosamente, não permanece mais que algumas horas. Inesperadamente, a bela Sun-hwa entra em sua vida e, juntos, eles vivenciam uma história de amor que ultrapassa as fronteiras da linguagem verbal.

Feito para ser sentido, o longa não apresenta inovações no uso de efeitos especiais. Pelo contrário, a simplicidade com que cada cena é filmada aproxima o espectador das situações mostradas e o faz questionar os limites entre realidade e fantasia.

Vale ser visto pela suavidade da trilha sonora, bela cenografia refinada e pelo apelo diferenciado no desenvolvimento do enredo. Sem dúvidas, ótima opção para quem procura inovação e opções para desfrutar boa companhia.

Outros Títulos: Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera
Time – O Amor Contra a Passagem do Tempo

FICHA TÉCNICA
Título: Casa Vazia (Coréia do Sul, Japão, 2004)
Títulos Alternativos: 3-Iron / Bin jib / Empty Houses
Gênero: Drama
Duração: 88 min.
Tipo: Longa-metragem / Colorido
Diretor: Ki-duk Kim
Distribuidora: Imovision
Produtora(s): Kim Ki-Duk Film, Cineclick Asia
Roteirista: Ki-duk Kim
Elenco: Seung-yeon Lee, Hee Jae, Hyuk-ho Kwon, Jeong-ho Choi, Ju-seok Lee, Mi-suk Lee (2), Sung-hyuk Moon, Jee-ah Park, Jae-yong Jang, Dah-hae Lee, Han Kim, Se-jin Park, Dong-jin Park, Jong-su Lee, Ui-soo Lee



terça-feira, 4 de novembro de 2008

AMIGOS, AMIGOS, MULHERES À PARTE

Por Diogo Azoubel


Definitivamente, este não é um dos filmes que você veria ao lado da sua avó. Ao contrário da maioria das comédias românticas produzidas atualmente, esta apresenta sem muitos pudores uma série de situações envolvendo sexo e práticas pouco difundidas na sociedade patriarcal de moralismos e restrições.

No filme, Kate Hudson dá vida a Alexis. Jovem, moderna e bonita, a personagem parece não ter medo de estreitar seus laços mais íntimos com um desconhecido. Tank, interpretado por Dane Cook, é o amigo cafajeste (e meio sujo) dos ex-namorados arrependidos.

Chamado geralmente após o fim dos relacionamentos, Tank tem a missão de convencer as recém solteiras de que seus antigos namorados eram perfeitos para namoros e, talvez, casamentos. Assim, utiliza o instrumental mais baixo de seu vocabulário e age como se a falta de bom senso fosse comum entre as pessoas.

Já o Dustin, de Jason Biggs, é o melhor e mais hetero amigo gay de toda garota. Atencioso e dedicado, ele não consegue externar satisfatoriamente o amor que sente por Alexis. Desesperado pela segunda chance de um relacionamento prematuro, ele acaba criando desastrosa série de tensões irreversíveis no processo de conhecimento e apreciação entre duas pessoas.

Depois de alguns almoços frustrados e olhares não correspondidos, Dustin cede à tentação e contrata os serviços de Tank, com quem, aliás, possui relações familiares. Forçadas as devidas casualidades, é hora de agir. Deste momento em diante, a aproximação com Alexis é capaz de fazer rir os espectadores mais céticos.

Na verdade, é preciso esquecer certos pudores para enxergar a mensagem distorcida veiculada entre “xanas” e “pintos”. Trata-se de um convite à busca da plenitude permitida pelos relacionamentos afetivos. E, embora não pareça, essa é uma necessidade comum e intrínseca aos seres humanos.

O filme trás uma série de lições sobre como encarar a vida a dois. Disfarçadas de piadas, elas incidem diretamente sobre valores como respeito, consideração, amizade e confiança. Apesar do orçamento pouco modesto de US$ 45 milhões, o filme não apresenta inovações no uso de tecnologias e esbanja elegância nos figurinos, mesmo nos mais casuais.

Sobre a trilha sonora: apesar de interessante e eclética, passa quase despercebida entre os sorrisos frenéticos que vêm da platéia. Enquanto o trabalho dos atores, mesmo satisfatório, não excede os limites entre a atuação aceitável ou não. De fato, eles [os atores] fazem o dever de casa, e só.

Vale ser visto pela energia de Kate Hudson, pelo sorriso de Dane Cook e pela falsa inocência de Jason Biggs. Além é claro, das divertidas exemplos do que se deve, ou não fazer no momento da conquista. Veiculadas durante os 101 minutos do longa, chamam atenção pela simplicidade com que são expostas.

Ótima opção para quem quer se divertir na companhia de amigos, familiares e/ou pretendentes. No mais, aprendizado perfeito para quem ainda não conseguiu se desvencilhar de relações do passado. Afinal, muitas vezes, é melhor permanecer correndo e deixar que o parceiro de corrida se levante sozinho e aprenda com o próprio tombo.



Ficha Técnica
Título no Brasil: Amigos, Amigos, Mulheres à Parte
Título original: My Best Friend's Girl
Elenco: Kate Hudson,
Lizzy Caplan,
Alec Baldwin,
Dane Cook,
Jason Biggs,
Diora Baird,
Diora Baird,
Amanda Brooks.
Direção: Howard Deutch
Gênero: Comédia
Duração: 101 min.
Distribuidora: Imagem Filmes

terça-feira, 16 de setembro de 2008

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA


Por Poliana Ribeiro


“Em terra de cego, quem tem olho é rei”. O dito popular soa falso após a exibição do filme Ensaio sobre a Cegueira, dirigido por Fernando Meireles e adaptado da obra do escritor português José Saramago. Na realidade, como bem demonstra o longa-metragem, enxergar quando os outros não podem fazê-lo soa demasiado cruel, principalmente quando o governo se isenta de qualquer responsabilidade e simplesmente isola seus “cidadãos”.

A hipotética cegueira branca começa em um sinal de trânsito, quando um homem comum tem a sensação de estar mergulhado em um “mar de leite”. Dali a poucos instantes, os que tiveram contato com ele – como o homem que o levou até o seu apartamento, para depois roubar-lhe o carro, o médico que o consultou, a esposa - também passam a experimentar a estranha sensação, que acaba, pouco a pouco, atingindo todos os habitantes da cidade. Todos menos uma: a esposa do médico (Mark Ruffalo), interpretada por Julianne Moore. É ela quem recebe a difícil missão de guiar todos os outros, que agora estão confinados em um manicômio abandonado para evitar o que os governantes descrevem como uma epidemia.

Sozinha, já que não pode dividir com os demais o seu segredo, ela assiste ao mais decrépito retrato do caos a que o ser humano pode se submeter quando perde o domínio da situação. Os anônimos – já que os nomes nunca são ditos e, na verdade, pouco importam naquele momento – se amontoam como animais e tentam apenas sobreviver, sem nunca pensar em se adaptar a sua nova condição. Mesmo depois de passado algum tempo, eles não tentam criar nenhum tipo de organização e apenas esperam uma decisão de fora.

A passividade dos novos cegos não difere muito da dos cidadãos “normais” – com a única diferença de que estes vêem por onde estão caminhando. Assim, Saramago critica a postura apática de quem sempre espera uma resolução do governo para os seus problemas, e mostra a incapacidade dos que tentam mudar alguma coisa sozinhos, a minoria que tem seus gritos abafados – personificados pela mulher do médico. Nada mais apropriado para o atual momento, época de eleições, quando novamente os cidadãos são chamados a decidir sobre suas próprias vidas. E como fica claro no livro e no filme, quando isso não acontece, instala-se um domínio de poucos – no caso o personagem interpretado por Gael Garcia Bernal e seus comandados da Ala 3 – que decidem o rumo de muitos. Aliás, mais uma vez o ator mexicano demonstra porque é um dos mais elogiados da atualidade.

O caos sugerido na obra de Saramago ganha contornos reais no longa-metragem de Fernando Meireles. Demonstrando estar construindo uma sólida carreira no cinema mundial, o brasileiro – que dirigiu Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel - conseguiu extrair o melhor da obra portuguesa e colocou sua própria assinatura na produção. Seria até esperado em um filme sobre cegueira utilizar recursos como fundos brancos – característica da doença - que aos poucos revelam outras imagens, sons mais evidentes, mas Meireles utiliza tudo com muita sabedoria e nunca carrega na mão. Só para ilustrar a competência da câmera do diretor, um simples detalhe como um cesto de frutas em cima de uma mesa, que poderia parecer algo despretensioso, é filmado com um objetivo específico. Como deve ser o bom cinema, toda cena, mesmo a mais banal, deve ter um sentindo na obra.

De negativo, talvez tenha faltado explorar melhor a densidade dramática de alguns atores – como a brasileira Alice Braga - para aprofundar mais o conflito psicológico dos personagens. Mesmo que um roteiro adaptado tenha a difícil missão de extrair apenas o essencial de uma obra escrita, é perceptível a ansiedade de Meireles para entrar logo nas conseqüências catastróficas da cegueira, o que o faz acelerar um pouco nos minutos iniciais do filme. Por mais que queira ter sido fiel ao livro de Saramago, o diretor poderia ter criado seu próprio ritmo, explorado melhor seus personagens, que sempre parecem muito mais superficiais do que deveriam ser, embora seus conflitos pessoais sejam irrelevantes para a história – como fica claro pela ausência de nomes. Ainda assim, esses detalhes não comprometem a obra.

Ensaio sobre a cegueira – livro e filme – é uma metáfora. Aqui não cabem questionamentos irrelevantes do tipo: “Como surgiu a doença?”, “Por que o governo resolveu confinar os cidadãos em um manicômio e não procurou uma cura?”. A cegueira é o estado de consciência do ser humano, que todos os dias arrasta-se para frente sem nunca enxergar por onde caminha. Ressalte-se o fato de que nem todos estão cegos – como a mulher do médico -, mas a estes pouco resta a fazer. Na verdade, estes podem contribuir com muito mais do que imaginam, talvez só não tenham se dado conta disso.